domingo, 28 de novembro de 2010

Eu por ti




Quem me dera ser mais forte
Ser forte o suficiente para arrancar o meu coração do peito
Para rasgar a carne em volta dele
Sentir o pulsar na minha mão
Sentir o fluxo de sangue escorrendo pelos meus dedos.
Quem me dera ter força para abrir o peito e dar-te cada bocadinho de mim
Quem me dera ser capaz de arranca-lo cá de dentro
Ao menos poderia ter a certeza que ele existe
Ter a certeza que não se transformou num bloco de pedra cuja única função é bombear sangue
E já agora, nem tenho a certeza que ele realmente o faça
Sinto-me fria, gelada
O gelo consome-me o peito
E quero arrancar-te
Quero sentir a dor,
Pois se sentir a dor, ao menos estou a sentir.
E arrancar-te seria a ressurreição do meu ser
Arrancar-te seria o júbilo da minha alma perdida por ti
De que serve um coração que não sente?
De que serve um órgão que não cumpre a sua função?
Eu devia sentir
Eu devia ser capaz de, no mínimo, sentir dor
Já que as outras emoções me resvalaram o pensamento
Vi-as sumirem-se por entre os meus dedos
Vi-as irem-se contigo e não mais voltarem
Não as culpo, não!
Eu sei, fui eu que tas dei, e o que é dado, não se pede de volta.
Mas que é feito do teu altruísmo
Sim, aquele que me chamou a primeira atenção?
Onde é que ele estava quando levaste a única fonte que me mantinha ainda viva
O único resto de humanidade em mim
O meu último suspiro
A única hipótese de redenção para a minha alma
O último momento de absolvição do meu espírito.
Que fizeste com eles?
Deitaste-os para o lixo apodrecido em frente à tua porta, como me fizeste a mim?
Ou guardaste-os como provas macabras de todo o sofrimento inflingido?
Orgulhas-te assim tanto do teu Sadomasoquismo constante?
Da tua loucura vil? Da tua insanidade completa que torna insanos aqueles que te rodeiam…
Esfaqueaste-me por dentro. Apunhalas-te toda a vida em mim.
E não satisfeito, levaste todos os restos putrefactos contigo, regozijando-te pela sua putrefacção tão completa, tão perfeita, que fez com que todos se apartassem de mim.
Eu dei-te tudo. Tudo.
Até a glória da morte da minha alma.
Dei-te tudo o que sobrava de mim. Dei-te? Dei-te mesmo?
Ou arrancaste-mos à força?
Sugaste-mos serenamente, calma e tranquilamente como só tu sabes.
A pouco e pouco, quase sem que eu me desse de conta, até que já era tarde de mais.
Só deixaste a carcaça. O esqueleto disforme. E mesmo no meu lânguido final, nem o tutano deixaste virgem, violando-o vezes sem conta.
Agora podes dizer.
Di-lo!
Eu fui, sou, e sempre serei toda tua.
Di-lo em altos brados!
 Esfrega-mo na cara.
Regozija-te de não teres deixado em um milímetro intacto.
Ri-te em altas gargalhadas!
Gargalha sonoramente na minha desgraça.
Afoga-te no tumulto dos meus restos, espalhados à minha volta, pedindo clemência.
Mas que ouves tu?
Os teus brados são mais altos que a dor. São mais altos que a vida que se esfuma.
Os teus brados são morte.
São a morte tua que pulsa em mim.
A minha vida pela tua.
Não foi sempre assim?
Eu por ti.
Eu por ti.
Eu por ti.
E tu, por mim?
E tu?
E eu?
Importaste-te?
Não.
Fui sempre e só, eu por ti.
Eu.
Por.
Ti.

28/11/2010

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Dark Victory


Tamanho A3, técnica mista (lápis de cor e ponteiras de tinta da china)

My dear Journal




E, no pensamento fugidio dum instante roubado, escrevo as confissões da minha alma negra.
Rasgo a tua brancura virgem com a ponta desta caneta infame.
Toda a vida começa com sofrimento;
Este é o teu começo.
Violo-te sem dó nem piedade e, não espero que me perdoes, porque a alma não necessita de perdão quando se derrama no corpo.
A partir de  hoje, vives! E o sofrimento não cessará. Não. Não te iludas, mas não sejas pessimista, bom amigo!
Prometo-te grandes exaltações, gargalhadas, confissões e criações. Não terás descanso.
Mas não te queixes, pois, quando repousares, lembrar-te-ás de mim, das minhas confissões e criações.
Estranharás a minha alma nas tuas folhas e chamarás por mim.
 E eu estarei longe. Não longe de ti, mas longe de mim. O teu fim será o meu fim.
No dia em que a minha alma se calar na brancura das tuas paginas, poderás ter a certeza que não foi ela que se cansou de te cumprimentar dia apos dia.
Não. No dia em que ela se calar, será porque eu, reles corpo transportador de almas, exalei o meu ultimo bafo de oxigénio; inspirei uma ultima vez o cheiro das tuas páginas e, no meu ultimo suspiro, poderás ter a certeza, pensarei em ti; na nossa historia, nas nossas confissões, no nosso sorriso.
Então, fica aqui escrito: na tumba em que o meu corpo terreno apodrecer, deixado à mercê dos gloriosos insectos que o hão-de tornar imortal na sua não-existência, estarás comigo. Pois, a alma pode calar-se, mas não pode morrer. A alma é eterna, porque eterna Deus a fez.
Bom amigo, por mim não chores, de mim não tenhas pena. Tu e eu somos um só. Nem a morte nem a vida nos separará.
Sou tua e tu és meu.
E de que outro modo poderia ser?

4/11/2010

Sunset


Na tarde escura do sol que se apaga, adormeço o meu desejo de ti.
Suspiro calmamente, despedindo-me do sol radioso do dia que passou.
Ainda sinto a pele a escaldar pelo calor da tarde. Ainda sinto o cheiro a maresia nas minhas roupas.
A Natureza fala no silêncio do pulmão que expira uma última vez.
O mar escurece. Vai ser uma noite calma…
Talvez beba um copo de vinho tinto na varanda quando chegue a casa. Talvez observe o mar e me lembre das nossas noites calmas, na areia da praia, contando as estrelas.
Talvez nem pense em ti. Talvez desista de ti. Talvez pense na minha vida.
Talvez, pela primeira vez, pense em mim.
Sinto o vento que me penteia e faz cócegas no cetim leve que ondula ao sabor das ondas.
A lua clara inicia a sua lenta subida até ao céu onde o Sol lança os seus últimos raios.
Sou iluminada por um clarão prateado, derrama sobre mim a tua luz, oh gloriosa lua. Banha-me na tua solidão eterna, no teu amor impossível pela estrela Maior.
Olhas-me. Sorrio-te abertamente. Quem me dera ser como tu. Quem me dera olhar o mundo de um patamar superior sem conhecer, sem sentir. Quero unicamente observar. Ver. Não quero tocar. O toque é impuro. O toque dói.
Deixa-me ver.
Deixa-me ser como tu.
Eu quero ver.
Deixa-me.
Ver.

Na aspereza da tua mão


Na aspereza da tua mão,
Encontro o conforto das palavras que não foram ditas.
O dedo que me acaricia sem cessar,
é o mesmo que me esbofeteia com as palavras cessadas.
O teu toque é saudade da infância ambígua.
Agora é tudo preto e branco,
A escala de cinzentos extinguiu-se.
Pinta-me.
Pinta-me por favor.
Já estou farta desta monotonia.
Pinta-me. Peço-te! Pinta-me.
Da cor que quiseres.
Salva-me.
Pinta-me, pois morro.

Sabem quando vêm no carro de manhã e ainda estão meios a dormir?




Sabem quando vêm no carro de manhã e ainda estão meios a dormir? Parece que os últimos trinta minutos frenéticos não passaram de um sonho…
Não, vocês não acordaram um quarto de hora depois do tempo, não estão tão cheios de sono que escolheram a pior roupa do vosso armário, aquela que nem vestem para limpar a casa; com cores tão horríveis que têm vergonha de sair do carro. O vosso cabelo não está uma miséria, espetado em todas as direcções; não há nenhuma espinha maléfica que decidiu aparecer hoje algures na vossa cara que, por acaso, está cheia de manchas vermelhas e os vossos olhos não têm nenhuma ramela deprimida.
Então, enquanto reflectem sobre a vossa desgraça, o facto de terem deixado a capa da escola em casa, os livros e o estojo e o facto de as vossas meias se terem rasgado mesmo quando chegavam ao carro, no lugar mais visível possível, o que só chama a atenção para a cor horrorosa que estas têm, dão-se conta que estão mesmo na porta da escola e o vosso pai já está aos berros para vocês saírem. É aí que se materializa o vosso pior pesadelo (não, a vossa mãe não deitou fora o vosso ursinho de peluche que não é lavado há cerca de dez anos), quando põem o primeiro pé fora do carro, só não desmaiam porque o choque é tão grande que as vossas sinapses estão prestes a colapsar. Estão de pantufas. Sim, de pantufas. P-a-n-t-u-f-a-s. E em forma de cachorrinho, com orelhas saltitantes e tudo!
O vosso pai continua a gritar e tenta tirar-vos de dentro do carro à força.
E agora? Não podem ir de pantufas!
No preciso segundo em que o vosso pai conseguiu abrir a porta do carro e quase atirar-vos de lá para fora, vocês lembram-se! Hoje têm Educação Física, logo têm as vossas sapatilhas no saco.
Ao mesmo tempo que gritam com o vosso pai, procuram as sapatilhas horrorosas que só se atrevem a usar nas aulas e descalçam logo que saem do ginásio para que ninguém veja. Seria preferível andar descalça, não fosse o facto do chão da escola ser… duro.
Calçam as sapatilhas, finalmente. Preparam-se para sair do carro, quando reparam que as calçaram ao contrário.
O vosso pai desistiu de berrar e agora ameaça com o pé na embraiagem.
Não há tempo!
Agarram em todos os vossos pertences e saem do carro. Estão no meio do passeio.
O vosso cabelo está lindo. Pena que parece ter rastas.
A vossa pele está perfeita, tão vermelha como se tivessem uma erupção cutânea.
Têm um top roxo, um casaco vermelho, uma mini-saia azul-turquesa, umas meias-calças amarelo-papagaio e umas sapatilhas (com os pés trocados) brancas.
Mesmo assim, têm tudo o que necessitam! A vossa pasta, um coelhinho de peluche da vossa irmã mais nova, um guarda-chuva da barbie, a pasta do trabalho do vosso pai, um cobertor de pelúcia, mas não menos importante, umas pantufas (de origem desconhecida) em forma de cachorro, e com os olhos de luzinhas intermitentes, que apitam quando se toca no focinho.