quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Brisa na areia

E é como se uma brisa passasse na areia, apagando de novo todos os vestígios da nuvem negra que assolara a minha praia naquela manhã.
E sentei-me uma vez mais na areia húmida, reflectindo sobre todas as palavras que acabara de escrever. Analisei cada letra, cada expressão, cada frase. Rasurei  aquelas que me desgostavam e acrescentei o necessário.
E uma vez mais li-a, ficando com a nítida sensação  de que, nem que a reescrevesse toda, conseguiria transmitir o turbilhão de emoções e pensamentos que me assaltavam.
Apenas podia garantir que dera o meu melhor, que me expressara da melhor maneira que conseguira, pudera, ou soubera.
Dobrei-a em quatro e olhei as paginas já amarrotadas por tê-las lido e dobrado tantas vezes.
Enfiei-as dentro do envelope de areia e selei-o com saliva na borda.
A mesma saliva que um dia experimentaste.
Olhei as ondas que beijavam a areia.
Quem me dera ser areia, e quem me dera que fosses mar e a cada pôr-do-sol cumprimentar-nos-íamos como se fosse a primeira vez, como se a paixão da noite tivesse sido esbatida pela brisa suave que me acaricia.
E relembrei a tua face, relembrei os teus contornos e chorei. Uma vez mais chorei. E as lágrimas sempre fieis caíam em abundância.
Uma vez mais olhei o mar. E quis ser a onda, ou a areia. E quis ser o barco, o sol, a lua e as estrelas. Quis ser o que quisesses que eu fosse.
Seria sereia, concha, búzio, navio, vela.
Seria nuvem, corda, madeira, baú.
Seria garrafa que dorme ao sabor das ondas.
Seria a carta na tua garrafa. Seria a rolha que a tapa.
Seria a agua que a enche.
Seria os lábios que dela bebem.
Seria as mãos que a abrem.
Seria os olhos que a lêem.
Seria o rosto que reflecte.
Seria tudo. Seria a morte que te leva.
Seria a vida que se esvai.
Seria o último suspiro e o primeiro grito.
Seria o corpo, a carne, a pele e os ossos. Os nervos, os músculos, o sangue pulsante.
Seria o coração.
Seria a alma.
Seria o espírito.
Se fosses meu.
Seria tudo o que tu quisesses desde que te pudesse ver uma vez mais.
E apenas te pedirei isso.
Uma vez mais.
Uma só.
Para me despedir.
Uma última vez.

Adeus



E é no escuro turvo da minha memória que te vejo uma última vez. E despeço-me de ti, minha última memória de mim, do meu antigo eu, da minha outra metade de mim. Despeço-me uma vez mais para que tenhas a certeza de que é uma despedida e, uma vez mais repito-te os mesmos versos:
Longe de mim querer esquecer-me de ti
Pequena metade de mim
Querida companheira dos tempos antigos
Querida consorte dos anos passados
Querida amiga de momentos perdidos
Despeço-me apenas
Tal qual medico numa visita rápida
É apenas uma breve despedida
Não é um adeus, mas um até logo pois sei que sendo minha nunca te abandonarei, seria o mesmo que abandonar-me.
E sou demasiado egoísta para isso.
É um até mais
Até mais não poder
Até nunca te esquecer
É um até logo
Um daqueles longos sorrisos calmos
Um daqueles acenos calvos
Uma daquelas vaidades loucas.
Voltarei, prometo, um dia
Voltarei para uma vez mais olhar-te ao espelho
E por fim, pela ultima vez
Pela ultima derradeira vez
Despedir-me de mim.
E nesse dia em que as cinzas da terra me comerem a carne
Nesse glorioso dia do meu adeus final
Serás a minha última memória
O meu último sorriso
O meu último aceno
O meu último adeus especial.
Suspirarei uma última vez
Inspirarei o teu calor suave rosado
A tua firme brancura
 A tua calva loucura
O teu rosto triste
As tuas palavras em riste
O meu ténue atraso
O nosso leve abraço
A minha leda memória
A tua velha história
Os nossos anos alados
Os caminhos tomados
Os risos partilhados
As lágrimas choradas
As graciosas gargalhadas
O cetim brilhante
O teu corpo pulsante
A minha textura amarga
A tua túnica larga
Os teus seios tapados
Os teus olhos corados
Contornos proibidos
Lábios torcidos
O meu sorriso torto
O nosso amor morto
O desaguar de um novo rio
Cada novo desafio
Cada palavra pronunciada
Cada gota de saliva desperdiçada
Cada doçura não apreciada
Cada momento ignorado
Memórias do nosso passado
Cada nascer do dia
Cada nova manha
Cada tentada
Cada olhar perdido
Cada gesto enviesado
Cada toque trocado
Cada leve amargura
Cada solitária ternura
E cada lágrima caída
Cada noite despida
Cada letra esquecida
Cada anoitecer tardio
Cada por do sol no rio
Cada cama desfeita
Cada hora rarefeita
Cada verso de poeta
Novo sonho desperta
Cada risco no papel
Cada toque na tua pele
Cada adeus trocado
Cada abraço não correspondido
Cada conselho de amigo
Cada confiança traída
Cada rosa despida
Cada apara de borracha
Cada carta guardada
Cada folha borrada
Cada esquina dobrada
Cada lençol manchado
Cada olhar enamorado
Cada suspiro ao acaso
Cada mouro desenlace
Cada flor que floresce
Cada semente que permanece
Cada subtil nascer do sol
Cada canto de rouxinol
Cada cotovia a chorar
Cada mocho a sussurrar
Cada girassol dormido
Cada campo caído
E cada janela aberta
Cada nova descoberta
Cada floco pisado
Cada anjo alado
Cada tarde mortiça
Cada campo frio
Qual morto num rio
E o teu último vislumbre
Tão bela como sempre
Tão jovem qual semente
Tão tenra tal maçã
Tão macia qual lã
E a minha ultima despedida
E o meu último suspiro
E a minha ultima lágrima perdida
E o ultimo correr do rio
A última palavra
A última gota de saliva gasta
Umas costas voltadas
Uma eternidade pela frente
É um adeus momentâneo
Voltaremos a encontrar-nos
Quais querubins dos céus
Os dois perante deus
E eu, diante do meu último amor.
Adeus.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Demónios

A libertação dos demónios interiores, o exorcismo da alma encarcerada exerce sobre nós, na forma de libertação tão profunda, tão profundamente íntima, transforma-nos completamente.
O exorcismo leva tempo. Demora. Dói. Gritamos por misericórdia, piedade. No entanto não há ninguém que nos valha. É algo íntimo, pessoal, com o qual temos que lidar sozinhos, fechados nos pesadelos de nos mesmos, encarcerados na nossa própria realidade imaginária e inconstante.
Há vários tipos de demónios. Há aqueles que nos atormentam a vida inteira, aqueles que por mais que tentemos exorcizar, não há padre que nos valha. Há aqueles que, como os meus, atormentam por fases. Durante algum tempo assaltam-me o pensamento e depois, durante anos, permanecem qual vulcão adormecido, esperando o momento em que a lava chegará ao topo, atingindo tudo e todos com a sua chuva de pequenas gotas de orvalho corrosivo.
No entanto, demónio meu, desta vez não foi preciso padre para o exorcismo. Tomei-te pela fronte, encarei-te de uma só vez e destrui-te. Não me atormentarás mais. Nunca mais terás poder sobre os meus pensamentos e, acima de tudo, não mais me impedirás de encarar a minha realidade, aquela que me pertence por direito, aquela para a qual nasci.
E embora, no meio disto tudo tenha que encarar outros demónios, embora por vezes pense que esta realidade não passa de um demónio passageiro, sinto que este novo demónio não deve ser exorcizado nem aniquilado, não o encarcerarei na minha cabeça, não me envergonharei dele. E quando, e se ele for embora e eu voltar à minha velha realidade amena, não o esquecerei nem me envergonharei de uma vez o ter acolhido como meu pois, estes são os meus demónios, e amo-os por serem meus. E adoro-os por porem à prova toda a minha vida, por exigirem mais e mais de mim. Guardo-os na minha caixa de Pandora e orgulho-me deles e visito-os, e recordo-os e, uma vez mais, agradeço-lhes por serem os meus demónios, so meus e de mais ninguém.