segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pessoa da minha alma

E é no compasso de espera deambulante da hora que não passa que te sonho em sonhos proibidos de razão ou de ser. Sonho-te uma e outra vez e suspiro profundamente, inspiro o ar frio devagar, de volta à realidade onde não estás tu.
E tento, uma vez mais, sonhar-te lentamente, na bruma do pensamento inerte. Na minha inconsciência constante sonho-te uma e outra vez, sem sonhos proibidos.
Sonhos proibidos. Sonhos sonhados na proibição ilustre da tristeza que alastra e sorrio no instantâneo mover dos teus lábios. Rio-me de mim e da minha loucura. Rio dos meus sonhos contigo e fixo-me nos teus olhos negros, perdendo-me em contrastes sem cor, nas longas e fartas pestanas que os abafam, a pele firme e macia que os rodeia.
Perco-me na textura que te cobre, no rosa claro de que és feita, pessoa da minha alma.
Sonho-te, perfeição do meu barro mal amassado, mel do meu pólen mal colhido. E se mais te sonho mais te quero. Doce açúcar enjoativo, café amargo da terra, sal que banha o meu mar, saudade que de mim berra.
E sonho-te mais e mais, e sonhando te desejo. 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Tonto é aquele que nada contra a corrente


O amor é negro. Não negro como uma noite tranquila de verão, salpicada por estrelas minúsculas no horizonte. E negro como a morte, pois à morte nos conduz.
É negrume que dói, corrói a pouco e pouco a alma. Humilha, espera paciente, e de dia para dia arranca-nos pedaços. Uns maiores, outros menores. Há dias em que no-los arranca tão inesperadamente, e tão grandes que parece que nos leva a alma. Outros dias tira-los suavemente, com doces mãos de doces sofrimentos. Nem damos por isso, na nossa dormência indiscreta.
É como um sono que nos abala e não podemos acordar. Sonhamos pacientemente com o dia em que o príncipe tomará a bela adormecida do seu leito milenar. Sonhamos com uma branca de neve ressuscitada ou com uma polegarzinha encontrada. Com doces cavaleiros em dossel branco e pequenos anões alados. Fadas e elfos valentes e uma bruxa má que se converte em fada boa, no final da história. E todos vivem felizes para sempre.
Para sempre é muito tempo. Para sempre é demasiado tempo. Até para amar.
Para sempre é negro. É a negra mentira contada todos os dias a crianças inocentes, é a negra mentira que casais juram um ao outro num romance afastado. Mentiras e mais mentiras, porque o politicamente correcto vence sempre, o cansaço vence sempre, e a dor, vence sempre.
É mais fácil acabar tudo e não lutar, rescindir-se à ignorância impessoal da covardia ligeira.
É mais fácil passarmos ao lado da vida e virarmos a caraq do que a encarar-mos de frente. Caramba! Peguem o boi pelos cornos! Tenham coragem por uma única vez que seja! Mas que raio de seres são vocês que nem convosco mesmos falam? Olhem-se ao espelho e vejam, com olhos de águia, que é que têm feito até agora senão fugir dum poleiro para outro, pior que galos em capoeira. Ao menos os galos cantam de manhã, ao menos isso fazem bem.
Reles serpentes dominadoras. Reles escaravelhos de bancada. Que é para vós a vida? Algo tão descartável quanto a morte? E brincam na indecisão do suicídio com meio pé na ponte, meio pé no vazio. Será que vou saltar ou não? Sim. Não. Não. Sim. Talvez. Daqui a uns minutos. É agora. Não, afinal não quero. Espera, já quero. Aqui vou eu.
E mantêm-se na água enquanto ela está morna e quando arrefece, depressa nadam para a margem. Deus nos livre que a agua fria vos toque.
E fugir é tão fácil. Tão simples. Que ridículo.
Tonto é aquele que nada contra a corrente, que não se deixa levar pelo frio da água, que contra tudo e contra todos vos busca na margem. Mas a água está fria. A água fria faz mal. Mas sabem que mais? A água fria torna-se quente depois de algum tempo. O vosso corpo adapta-se e aquece. O que custa é o primeiro passo, e os primeiros minutos.
E dão o primeiro passo, convencidos da vossa coragem intrínseca. Mas a água demora a aquecer. O vosso corpo demora a adaptar-se. Correm para longe, alcançam a margem e por lá ficam. E aquele que correu contra a corrente é levado por ela, pois esgotou todas as suas forças no vosso resgate.