segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Take me somewhere nice





Quando a Vida rejeita um ser vivo, todo o seu percurso é marcado por esse primeiro fôlego que lhe foi negado ainda no ventre da mãe.

Raul Câmara tem 52 anos, nasceu num período de insatisfação exacerbada duma sociedade decadente, no auge do pânico sufocante que abalava todas as familias... cada grão de farinha contabilizado, cada grama de arroz controlada, cada moeda guardada num compartimento secreto.. A ditadura de Salazar tomava as rédeas de todo o pais, os homens abandonavam as suas casas, e contra a vontade atravessavam meio mundo, lutando por ideais que não eram os seus, por uma guerra que não era a sua.

Mulheres que esperavam dia e noite, rezando para que 'ele' voltasse no próximo barco, cartas enviadas e perdidas, as noticias corriam contra o vento sem o conseguirem vencer, nada conforta a dor duma alma perdida sem promessa de voltar.

E foi numa noite tranquila, que Raul Câmara fez a primeira viagem da sua vida; nas águas calmas da Ribeira de João Gomes, o recém-nascido, dormia placidamente, embalado pelas pequenas ondas, dentro de um cesto de vime, aconchegado pelo cobertor de lágrimas bordado pela sua mãe.

Aos primeiros raios do amanhecer, o Sol mal aquecia a terra, quando foi encontrado por um Bombeiro. Continuava adormecido nos sonhos serenos que só os inocentes sabem ter.

Sem família nem casa onde ficar, foi abrigado por uma associação que o cuidou até à adolescência.

A necessidade de conhecer as suas origens mais tarde ou mais cedo bate à porta de qualquer ser humano, e não abriu exceção com Raul. Já adulto, procurou saber quem era, de onde vinha.. assim, descobriu que tem várias irmãs e irmãos, chegando a conhecer uma delas, que sugeriu leva-lo para Lisboa com ela. Raul negou: 'A Madeira é a minha casa';

'Vivo aqui como um bicho', diz ele. Apesar de ocupar um cargo na Segurança Social, não tem nada seu. Dorme na rua, come a favor, em casa de amigos e conhecidos, que por vezes o albergam, no entanto, envergonha-se da sua situação, mantendo-se num estado de autocomiseração constante.

A rua dá-lhe liberdade, não o julga, não lhe aponta o dedo. Mas não lhe oferece a autonomia ou a independência que todos nós, seres humanos buscamos. Obriga-o à humilhação que só a necessidade física compreende, obriga ao despojo de qualquer orgulho ou moral que um ser humano possa ter, obriga à rendição da dignidade por um prato de comida ou uma camisa lavada.

E pior que o despojo de todo e qualquer tipo de valor moral, social ou espiritual, é a humilhação dos maus tratos infligidos, física ou psicologicamente por quem passa por ele. Um olhar de desdém, um dedo que aponta, um sorriso enviesado, uma palavra mal dada, por aqueles que tudo têm e a nada dão valor. Aqueles que não sabem o que é a necessidade, a inexistência perante a sociedade. Não sabem o que é ser transparente, o que é a miséria de não ser notado quando se está ali em frente, a privação da identidade que todo e qualquer ser humano recebe por direito.

Mentes mesquinhas, vazias, medíocres. Só vêm o que querem ver. Para além das rugas do tempo que lhe percorrem a face, Raul não se trata apenas de 'mais um' inadaptado social, como lhe chamam as mentes brilhantes da nossa sociedade. Raul é um amigo fiel, nunca fez mal a ninguém, nunca roubou, mentiu, magoou. Há poucos que o possam dizer, e orgulhar-se. Há poucos que na sua situação já teriam feito de tudo para sobreviver. Raul rende-se à sua necessidade, mas não passa por cima do respeito pelo próximo. Não odeia aqueles que têm mais que ele, não os julga por não o ajudarem. Não os maltrata porque o maltratam a ele; apenas lhes quer bem, e deseja que tenham tudo aquilo que ele não teve e que saibam usufruir disso.

No meio do infortúnio, Raul vê a fortuna que é o dom da vida que lhe foi dado, e aproveita-o ao máximo, sem arrependimentos ou vergonha de ser quem é.

Ventos da Solidão





Os ventos da solidão alastram-se sobre mim. Na noite escura, reflexões metódicas controlam o meu pensamento, e é no silencio que reflito.
Que resta das amizades passadas? Eternos amigos julguei. Eternas saudades, enterrei. A dor sucumbe ao desespero da solidão diária. Que é feito da antiga família de sangue impuro que criamos? Que é feito das conversas leves, das introspeções tardias; os julgamentos afincados e as discussões ridículas. Que restou? Migalhas, reles migalhas que me deitam, como a um cão sarnoso que se mantem perto do dono pois não tem coragem de o deixar.
Há mais coragem no abandono do que no comodismo. Há mais coragem na solidão que no convívio.
Mundo de mascaras arduamente esculpidas na necessidade impura da igualdade fingida.
Mais vale só que mergulhada em migalhas bolorentas dos pães mal amassados, dos restos de farinha mofenta.
A solidão abarca todas as feridas mal saradas da vida. Que nem a saliva mais forte fez fechar, que nem os anos mais longos fizeram sarar.
Mas de que vale ter-te por perto se mais mal me fazes do que bem me trazes?
És como as estações que pela terra passam. No Inverno tenho saudades do Verão, mas quando o Verão chega já não o quero. Assim é contigo. Quero-te agora, mas quando voltares, já não estarei pra te receber. Quando voltares serás um desconhecido, e quando voltares, já não te quererei.
O timming é uma coisa muito importante, sabes? É graças a ele que as feridas que me provocas doem tanto.
Mas as feridas fecham, e quando fecharem, nem a mais emotiva desculpa fará efeito. Nessa altura, nessa gloriosa altura, não passarás duma recordação esborratada do meu passado, e  graças a deus, ou ao demónio, esse tempo irá chegar.
A noite alarga-se e peço a uma força superior que voltes enquanto ainda é tempo. No entanto, sei que não o farás, e agarro-me às recordações com uma devoção doentia daquilo que fomos e daquilo que somos. Suaves recordações que desaparecerão, tal como tu. E só voltaram para assaltar-me em noites negras como esta, em pesadelos inacabáveis.
E não te chamo pra junto de mim. Porque dói mais chamar-te que recordar-te. É mais fácil aceitar que me esqueças sem que interfira, do que, que me esqueças com a minha sombra a abraçar-te. Esquece-me à vontade, também te esquecerei.
Solidão negra da minha alma, que no abandono deixaste.
Farinha impura do pao bolorento que me deste
Sopro mofento do ultimo bafo que de ti respirei
Espiral de memorias que em ti deixei
Loucos os momentos que de ti recordei
E loucas as horas que de saudade chorei.
Lágrimas mal aproveitas. Restos dos restos de mim.
Vai-te, angustia doida da minha alma.
Vai-te, saudade estúpida do passado.
Não faças museu de mim!
Novos ventos que me arejem!
Novas memorias me abarquem!
Novos rumos me levem e novas saudades me matem!

Saudade de mim



Carrego-te
Saudade profunda de mim
Saudade daquela que eu sou
Carrego-te
Saudade profunda de mim
Do cisne negro que me matou.

E lágrimas pálidas brotam de mim
Lágrimas do choro que me deixou
E canto leda assim
O fumo negro que me abraçou.

A quem eu fui renego por mim
Saudade daquela que eu sou
No silencio da noite chamo por mim
Bendito aquele que me matou.

Choro triste é ser assim
Apenas metade do que eu sou
Mais triste ainda é viver sem mim
Aquela que por ultimo te chorou.

Á madrugada escrevo de ti
Versos tristes de quem chorou
O esquecimento vence-se assim
Nas águas calmas de um pensador.

Olho as estrelas e dou por mim
Alguém sabe quem eu sou
És tu que olhas para mim
Aquela que por ultimo te chorou.