segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Ventos da Solidão





Os ventos da solidão alastram-se sobre mim. Na noite escura, reflexões metódicas controlam o meu pensamento, e é no silencio que reflito.
Que resta das amizades passadas? Eternos amigos julguei. Eternas saudades, enterrei. A dor sucumbe ao desespero da solidão diária. Que é feito da antiga família de sangue impuro que criamos? Que é feito das conversas leves, das introspeções tardias; os julgamentos afincados e as discussões ridículas. Que restou? Migalhas, reles migalhas que me deitam, como a um cão sarnoso que se mantem perto do dono pois não tem coragem de o deixar.
Há mais coragem no abandono do que no comodismo. Há mais coragem na solidão que no convívio.
Mundo de mascaras arduamente esculpidas na necessidade impura da igualdade fingida.
Mais vale só que mergulhada em migalhas bolorentas dos pães mal amassados, dos restos de farinha mofenta.
A solidão abarca todas as feridas mal saradas da vida. Que nem a saliva mais forte fez fechar, que nem os anos mais longos fizeram sarar.
Mas de que vale ter-te por perto se mais mal me fazes do que bem me trazes?
És como as estações que pela terra passam. No Inverno tenho saudades do Verão, mas quando o Verão chega já não o quero. Assim é contigo. Quero-te agora, mas quando voltares, já não estarei pra te receber. Quando voltares serás um desconhecido, e quando voltares, já não te quererei.
O timming é uma coisa muito importante, sabes? É graças a ele que as feridas que me provocas doem tanto.
Mas as feridas fecham, e quando fecharem, nem a mais emotiva desculpa fará efeito. Nessa altura, nessa gloriosa altura, não passarás duma recordação esborratada do meu passado, e  graças a deus, ou ao demónio, esse tempo irá chegar.
A noite alarga-se e peço a uma força superior que voltes enquanto ainda é tempo. No entanto, sei que não o farás, e agarro-me às recordações com uma devoção doentia daquilo que fomos e daquilo que somos. Suaves recordações que desaparecerão, tal como tu. E só voltaram para assaltar-me em noites negras como esta, em pesadelos inacabáveis.
E não te chamo pra junto de mim. Porque dói mais chamar-te que recordar-te. É mais fácil aceitar que me esqueças sem que interfira, do que, que me esqueças com a minha sombra a abraçar-te. Esquece-me à vontade, também te esquecerei.
Solidão negra da minha alma, que no abandono deixaste.
Farinha impura do pao bolorento que me deste
Sopro mofento do ultimo bafo que de ti respirei
Espiral de memorias que em ti deixei
Loucos os momentos que de ti recordei
E loucas as horas que de saudade chorei.
Lágrimas mal aproveitas. Restos dos restos de mim.
Vai-te, angustia doida da minha alma.
Vai-te, saudade estúpida do passado.
Não faças museu de mim!
Novos ventos que me arejem!
Novas memorias me abarquem!
Novos rumos me levem e novas saudades me matem!

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